Agulha de Vinil: Genesis – The Way We Walk, Vol II: The Longs


Há bandas que nos marcam, quer queiramos quer não, e o que ouvimos com prazer na infância, fica no ouvido para sempre. Quando ouvimos estas músicas que enquanto crianças idolatramos, na rádio por exemplo, conseguimos revisitar na nossa memória as vivências, os lugares e as pessoas que nos marcaram nesta fase da vida. Algumas são os amigos de infância, outras já cá não estão, e se uma música me leva até elas pelas estradas da memória, fico feliz.

Os Genesis são um desses casos. Que crónica extensa e árdua teria de escrever se fizesse uma análise completa a esta banda fundada em 1967, atendendo à complexidade subjacente a todo o historial, evolução musical, mudanças de elementos, influências, concertos míticos, etc. Acho que seria preciso um livro para relatar tudo isso, dada a grandiosidade dos Genesis. Assim, fico-me apenas por uma prenda de Natal que recebi quando era criança, o álbum The Way We Walk, Vol II: The Longs, o segundo volume de um álbum tocado ao vivo, que englobava vários temas dos Genesis, desde os primórdios da sua fundação, alguns de quando o vocalista era o génio Peter Gabriel e as canções eram mais experimentais e progressivas.

Os músicos deste concerto são um Phil Collins “no ponto rebuçado”, na voz e percursão (para além do “Drum Duet” na última faixa, deixa de cantar e passa para a bateria várias vezes quando as músicas se tornam mais instrumentais), Tony Banks nos teclados, Mike Rutherford na guitarra (estes dois últimos são membros fundadores da banda e responsáveis por várias letras e composições de um grande rol de músicas dos Genesis), Daryl Stuermer no baixo e o grande Chester Thompson na bateria.

Com um tempo total de música de 70 minutos, este segundo volume, tal como diz o nome (“The longs”), é composto por temas mais longos ou por várias canções englobadas numa só faixa que a banda juntou como se fosse uma só música com transições entre temas absolutamente fantásticas, existindo também o The Way We Walk, Vol I: The Shorts, igualmente genial, na qual fazem parte temas mais curtos e também mais mainstream da banda. O volume 2 começa então com “Old Medley” que ocupa quase 20 minutos de música, com seis antigos temas magistrais, “Dance On A Volcano”, “The Lamb Lies Down On Broadway”, “The Musical Box”, “Firth Of Fifth” e “I Know What I Like”. A segunda faixa, “Driving The Last Spike”, foi tocada ao vivo exclusivamente apenas para esta tour, sendo dos temas mais recentes dos presentes no álbum. A trilha número três, “Domino (part 1 – In The Glow Of The Night, part 2 – The Last Domino)”, escrita por Tony Banks em 1986 para o álbum Invisible Touch, demonstra toda a qualidade dos músicos e a sua integração a tocarem ao vivo. Segue-se “Fading Lights”, que tal como a faixa dois, fazia parte do álbum We Can’t Dance, o último álbum de Collins na banda, para então a partir daí seguir a sua carreira a solo. Na faixa cinco, “Home By The Sea”, uma composição de duas canções exímias, escritas num dos momentos chave da história da transição musical dos Genesis, quando a banda começava a abandonar o rock mais progressivo e psicadélico e abraçava um estilo mais corrente e massificado. Por fim “Drum Duet”, com Collins e Thompson lado a lado, nas baterias, num espetáculo de percussão de dois dos melhores bateristas de sempre.

Este álbum representa para mim um dos momentos chave da minha vida, quando comecei a descobrir esta banda que tanto me influenciou para o gosto da música; não obstante, em termos globais, é um trabalho ao vivo tocado por músicos de eleição, numa fase grandiosa das suas carreiras, em tempos em que a música estava a mudar e não mais se assistiria a um espetáculo ao vivo deste género daí para a frente. Basta ouvir para compreender do que falo.