Grande reportagem: MAU, Safari Entrepreneur e Musicbox


Safari Entrepreneur não me sai da cabeça.  É impossível ficar indeferente a este álbum. Coeso, num estilo muito próprio, com arranjos muito cuidados e músicas extremamente completas,  este álbum entra directamente para lugar de destaque na biblioteca de qualquer amante de música eletrónica (e não só).

Quatro anos depois da edição do álbum anterior, os MAU chegam-nos com uma sonoridade diferente, mais madura, mais distinta, mais marcante. Safari Entrepreneur aparece-nos  como uma grande viagem pelo imaginário dos MAU, onde as faixas se unem e dão lugar a um todo, que nos guia numa viagem sem destino à vista e numa infinidade de emoções. Conseguiram fazer algo que só os melhores fazem, que só os melhores conseguem fazer,  criar música com alma,  que transmite sentimentos,  que nos faz pensar,  chorar,  rir,  que nos faz viajar.

Apresentação do disco ao vivo

Com a entrada de “Lights Off” percebeu-se prontamente que se avizinhava uma noite triunfal no Musicbox em Lisboa, local escolhido para a apresentação do álbum na capital. Uma batida muito mais presente,  muito mais forte  que a versão de estúdio  faziam adivinhar que esta não ia ser apenas uma reprodução de Safari Entrepreneur,  que esta ia ser uma viagem de redescoberta. E assim foi…  Muitas das faixas presentes no  álbum ganharam um novo brilho,  como se desviassem o véu imposto pelo alinhamento do disco e finalmente se revelassem,  na sua forma mais pura.

A carga emocional imposta numa actuação  desprovida de grandes truques cénicos, com o projector desligado e com enorme destaque nos músicos, a execução perfeita e a ligação com o público na medida certa, transformaram o que se adivinhava um bom concerto num concerto memorável. Ver estas fantásticas músicas serem executadas na perfeição, sem grande recurso a samples e com uma grande qualidade de execução por parte de todos os membros desta banda deixaram-me completamente rendido. De facto, dias depois ainda vejo Luís F. de Sousa a brilhar na voz e no sintetizador, em perfeita harmonia com a voz da fantástica Eliana, o sentido Nuno Lamy no órgão e samples, a execução perfeita na bateria de Paulo Silva e as cordas irrepreensíveis de Carlos Costa, que também dá conta de percussão e teclas.

E houve tempo para tudo. Tempo para tocar duas músicas que incrivelmente não tiveram espaço no álbum. Tempo para ver Luís F. de Sousa a dar conta de tudo o que havia para dar conta,  desde a substituição irrepreensível de Adam Glover em Noir até ao simpático contacto com o público, passando pela enorme versatilidade nos mais variados instrumentos. Tempo  para o regresso às origens com a presença de Pablo Camp e Shir Comay,  membros da formação original dos MAU. Tempo para agarrar qualquer pessoa que estivesse no Musicbox no dia 15.

É já esta sexta feira que os MAU estarão no Porto, no Plano B.  Não faltem! Mas entretanto aproveirem para conhecer melhor a banda lisboeta. O meiaderock esteve à conversa com Luís F. de Sousa.

Quatro anos depois,  regressam os MAU com Safari Entrepreneur. O que se passou nestes quatro anos?

Fizemos uma pausa que nunca foi combinada ou propriamente decidida entre todos… Simplesmente aconteceu. Coincidiu com o acentuar da crise financeira em Portugal, o que inevitavelmente afectou as nossas vidas profissionais e pessoais. Nunca vivemos da musica e sempre precisámos de ter outros empregos para que nos possamos sustentar, quando isso falha não há como alimentar a música. De certa maneira, essa foi a principal razão da nossa pausa.

De qualquer forma isso não impediu que continuasse a compor musicas novas ou a fazer remisturas para outras pessoas. Simplesmente não havia tempo para ensaios e consequentemente não havia forma de tocar ao vivo e andar na estrada.

Contudo, há males que vêm por bem. Isso deu-me tempo para compor, testar, experimentar, sem pressão, porque à partida não havia uma ideia definida de futuramente reanimar os MAU. Tive muito tempo para aprimorar essas novas composições e acho que isso se sente no disco. Quando finalmente o começámos a trabalhar enquanto banda, a energia era incrível porque sabíamos que tínhamos algo muito especial em mãos.  É um álbum muito mais maduro e onde todo e qualquer detalhe não foi negligenciado.

A reacção que entretanto íamos tendo lá fora às remisturas que lançámos e que se enquadravam na sonoridade que estávamos a aplicar no novo disco, também nos ia dando certezas sobre o caminho que estávamos a seguir. Bloggers estrangeiros e respectivos seguidores desses blogs receberam-nos muito bem e isso não esmoreceu com o lançamento dos primeiros dois singles deste disco ainda em 2013.

Dizias nas redes sociais que “nunca tiveste tanto orgulho num disco”, que isto é o “melhor que és capaz de criar”… 

Acho que cada disco é uma espécie de recomeço, mas se tivesse de apontar uma altura em que esse recomeço foi mais evidente, teria de dizer que aconteceu enquanto criávamos o nosso disco anterior Backseat Love Songs (2010). Aí sim houve uma revolução na banda. Saíram três elementos, dois por não se enquadrarem com o caminho que eu e o Nuno Lamy queríamos seguir e um por ter regressado a França por falta de trabalho em Portugal. Foi uma ruptura significativa, porque tanto eu e como o Nuno estávamos em perfeita sintonia em relação àquilo que queríamos fazer, deixámos de precisar de votações para se decidir um caminho que um tema devia seguir, tema esse que quando finalizado acabava por desagradar à maioria dos membros da banda. Julgo que isso se sentiu nesse disco. Tudo mudou. Só mantivemos o nome da banda por casmurrice, porque na realidade teria sido mais fácil mudar até o nome. Foi o primeiro disco dos MAU que, no seu todo, me agradou muito.

Este novo, o Safari Entrepreneur (2014) é aquele em que pela primeira vez fizemos exactamente aquilo que queríamos fazer, sem qualquer tipo de arrependimentos ou restrições. Tivemos muito tempo para que pudesse ficar exactamente como queríamos, sem pressões de editoras, etc. Daí a dizer que nunca tive tanto orgulho num disco nosso, porque efectivamente é o melhor que alguma vez fizemos. Podíamos ter feito de forma diferente, mas nunca de uma forma que soasse melhor aos nossos ouvidos. Sempre tive algum pudor em dizer que os nossos discos eram muito bons discos, mas com este não sinto qualquer tipo de pudor, não estaria a ser sincero e sentir-me-ia mal se não fizesse e se não o celebrasse desta forma. É um excelente disco.

Safari Entrepreneur aparece com uma carga emocional que não era tão presente em Backseat Love Songs… De que fala este novo álbum? E porquê Safari Entrepreneur?

Se o outro elogiava o dia-a-dia e a realidade, este tenta fugir ao máximo dela. É um disco muito pouco literal. É uma espécie de sonho que nos levou para longe, para África e para territórios afro-caribenhos, sonoridades que nunca nos haviam influenciado antes e que por mero instinto nos apareceram na criação deste disco. É um aconchego, uma espécie de colo para os nossos problemas, daí haver uma presença muito feminina e materna na temática do disco. É uma espécie de porto seguro onde tudo o que vês pela frente te deslumbra, mesmo quando se torna perigoso e até assustador.

É um Safari emocional, uma viagem distante, levados pela mão por quem gosta de nós e nos protege.

O lado empreendedor (entrepreneur), parte de quem investiu muito para que esse safari se concretizasse, quem criou e trabalhou muito para que ele acontecesse da melhor forma possível: os MAU.

Como te sentiste na primeira apresentação do álbum, em Leiria? Momento muito esperado nestes quatro anos sem sentir o público cara a cara? E em Lisboa, no Musicbox?

A ansiedade era muita. Estávamos algo nervosos e sem saber o que esperar. Íamos só tocar temas que ninguém conhece, porque não íamos tocar qualquer musica de álbuns passados. Era um nervosismo só comparado com a enorme curiosidade que tínhamos para perceber a reacção das pessoas ao novo disco. A acrescentar a isso, percebemos que 90% das pessoas que nos foram ver não nos conhecia, ou seja, não teria qualquer tipo de expectativa, o que por vezes até pode ser vantajoso. No fim de contas não podíamos ter pedido melhor estreia, casa quase cheia com um publico muito generoso que assumiu sem vergonhas que estava mesmo a gostar do que estava a ouvir. Tínhamos pensado que não haveria espaço para um encore, mas graças ao publico, fizemos encore e ainda tivemos de repetir mais dois temas por não termos mais nada preparado. Foi uma noite incrível que dificilmente esqueceremos.

Lisboa foi igualmente bom, mas diferente. Estávamos a jogar em casa. Conhecíamos de alguma forma quase metade das pessoas que lá estavam. Foi gente que saiu de casa a uma quarta feira para ir ouvir os MAU ao Musicbox. Família, amigos, fãs e curiosos que encheram a casa e que nos deram todo o apoio desde o momento em que tocámos a primeira nota. Pode parecer mais fácil, mas aumenta a nossa responsabilidade e nós não nos esquecemos disso. Correu mesmo muito bem. Se sentimos que tínhamos agradado a desconhecidos em Leiria, em Lisboa sentimos que ainda conseguimos surpreender e agradar a quem já nos conhece e segue há vários anos.  O feedback durante e pós concerto, foi de nos deixar com o peito cheio.

Durante estes quatro anos, os MAU tiveram um grande reconhecimento fora de Portugal. Podemos esperar uma Tour de MAU por todo o país ou vão se dedicar também aos palcos internacionais?

Durante estes quatro anos tivemos vários convites para tocar lá fora, mas não os pudemos aceitar porque efectivamente o que íamos ganhar não chegava nem de perto para pagar todas as despesas que íamos ter. Temos inclusivamente algumas propostas em cima da mesa, o que acaba por ser triste e angustiante quando não podemos dizer que sim… Mas é essa a realidade e não há nada que possamos fazer para já. No passado tivemos a experiência de tocar na Islândia, Dinamarca e França, e foi incrível, pelo que adorávamos repetir…Simplesmente sabemos o quanto isso nos custou monetariamente para sabermos que não o podemos fazer nos próximos tempos.

Além disso queremos muito mostrar o nosso disco cá. Somos portugueses e queremos muito que os nossos gostem do que fazemos. Essa é a nossa prioridade, neste momento, no que toca a concertos. Agora, é claro que os temas continuam a chegar lá fora e temos tido muita sorte ao estarem a ser muito bem recebidos pela blogosfera internacional. Pode ser que num futuro próximo algum mecenas generoso se chegue à frente para suportar os custos das viagens, etc. (risos)

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