Recordar os Jethro Tull para fugir à “mão invisível” que nos quer dominar


Queremos tudo, agora e já. Comemos cenas rápidas feitas sabe-se lá com que ingredientes merdosos travestidos de “the next cool thing”. Deleitamo-nos com ‘apps’ que sorrateiramente nos roubam a identidade e condicionam o que ouvimos, vemos e lemos.

Em nome da Indústria, do lucro e da ganância, estão a nivelar-nos por baixo e nós deixamos. Quanto mais a sociedade embrutece, mas ricos se tornam os mais ricos.

E o que raio tem isto a ver com o Meia de Rock? Tem tudo. Aqui respira-se alguma ousadia, alguma irreverência. Aqui procura-se combater a mediania cultural, o atavismo intelectual em que nos querem mergulhar. E por isso vos trago uma proposta que mostra ainda ser possível fugir à Mão Invisível que a todos quer dominar.

Recuemos no tempo. Década de 70 – injustamente esquecida entre a desbunda dos 60 e a rebeldia estética e cultural dos anos 80. Foi nessa década de setenta que cresceram e se consolidaram alguns dos projetos musicais mais importantes de toda a história da música. Músicos com mensagem, músicos com voz, pensamento crítico, ideologia e capazes de cozinhar tudo isso em canções e álbuns que ainda hoje merecem ser ouvidos, relembrados, venerados até. Até porque o fizeram sem descuidar todo um universo estético único, capaz de nos fazer viajar por mundos paralelos onde o limite da viagem era a própria imaginação de cada um. É o caso dos injustamente esquecidos Jethro Tull, a banda inglesa liderada pelo flautista mágico e lunático absoluto, Ian Anderson.

Aparecem rotulados de banda de rock progressivo, e eram-no, mas não se limitaram ao rótulo e foram beber à música folk (“Songs From the Wood”), ao rock mais musculado (“Heavy Horses”, mistura feliz de diferentes fontes musicais). Foram progressivos (“Thick as a Brick”, “Aqualung”, “Minstrel in the Gallery”), mas souberam ir buscar influências diversas e onde bandas como “Yes” e “Camel” mostravam incapacidade de seguir em frente, Ian Anderson reinventava-se e cruzava hard-rock, folk, progressivo e até sinfónico num universo em que só os Jethro Tull conseguiram navegar. Um universo de duendes e bardos, corruptos e jornalistas, misticismo e crítica social.

Os Jethro Tull foram dos primeiros a criticar o papel dos jornais ao serviço dos grandes grupos, foram pioneiros no alerta para as questões ambientais (“North Sea Oil” do álbum “Stormwind” – que tem uma capa fabulosa), souberam reinventar-se depois de uma crise digital profunda e em plenos anos oitenta assinaram uma preciosidade – “Broadsword and the Beast”.

A partir daqui perderam o norte e como tantos outros sucumbiram à sociedade do imediatismo.
Como corolário de tudo podem ouvir o melhor disco ao vivo da banda “Bursting Out – Live”. E perceberão porque motivo os concertos da banda estiveram sempre esgotados durante anos consecutivos.

Lucy SD

/////

Foto: Direitos Reservados

+ There are no comments

Add yours