Ornatos Violeta prometem uma Maré de Agosto inesquecível


Quando terminou, uma imediata nostalgia assolou-nos o corpo. Julgávamos nunca mais poder vê-los ao vivo. Corria o ano de 2012 e os Ornatos Violeta anunciavam um inesperado regresso aos palcos. Mais de uma década depois do seu último álbum, uma corrida aos bilhetes verdadeiramente louca transformou três concertos em seis Coliseus completamente esgotados. Pelo meio, uma espécie de teste no Coliseu Micaelense – o único concerto da pequena digressão que não esgotou.

No Coliseu de Lisboa, onde já só apanhamos bilhete de camarote, longe da vida da plateia, sentimos uma energia infindável. Um alinhamento composto por 35 canções levou-nos aos céus, mas rapidamente descemos à realidade – aquela era a última vez que teríamos oportunidade de ver Ornatos ao vivo. Felizmente, Manel Cruz e companhia voltaram com a palavra atrás e anunciaram este ano uma curta digressão para comemorar os 20 anos de “O Monstro Precisa de Amigos”. Aos concertos no NOS Alive, MEO Marés Vivas e Festival F junta-se agora o nosso palco favorito – o palco à beira-mar plantado da Maré de Agosto.

Como sempre vimos dizendo, a Maré de Agosto não é um festival em que as atenções estejam centradas no cartaz. Aqui há um espírito de descoberta musical muito enraizado, envolto numa comunidade incrível e enquadrado numa baía de cortar a respiração. Este ano, mesmo com um cabeça-de-cartaz incrível, a descoberta musical não perde força. Pode contar com o funk e ska de Muayo Rif, a música de vestes tribais de Eskorzo, a transversalidade da brasileira Da Cruz e a folk irlandesa de The O’Reillys and the Paddyhats. Em cima tudo isto, a açoriana Maria Bettencourt e a “moçambicana muito portuguesa” Selma Uamusse tornam esta Maré verdadeiramente imperdível.

Manuel Silva

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“Cão” (1997)

Em 1997, na Escócia, o Instituto Roslin dava a conhecer Dolly, uma ovelha resultante do primeiro processo bem sucedido de clonagem de um mamífero a partir de uma célula adulta. Em Portugal, os Ornatos Violeta lançavam o seu disco de estreia, “Cão”. Embora ambas as criações estejam relacionadas com animais, apenas uma não é uma espécie de cópia. Portugal ouvia “Saber Amar” dos Delfins, “Quase Tudo” de Paulo Gonzo e “Dados Viciados” dos Xutos & Pontapés, e de repente aparecem os Ornatos Violeta. Niguém soava como eles, ninguém cantava como Manel Cruz, com o seu acentuado sotaque portuense, que muitos tentaram imitar, e ninguém escrevia como Manel Cruz, que acabou por influenciar outros tantos. Em poucas palavras, “Cão” é uma concentração de energia em estado puro, com muita criatividade, raiva adolescente e irreverência incontida. Em duas palavras: ‘Big Bang’. Porque deu origem a um novo universo.

 João Cordeiro

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“O Monstro Precisa de Amigos” (1999)

Os leitores da Blitz consideram que é o melhor álbum português dos anos 90. E eu – com toda a subjetividade que isto implica – talvez não fizesse uma escolha diferente. “O Monstro Precisa de Amigos” é uma obra-prima. É bom da primeira à última música. “Ouvi Dizer” é um clássico imediato, uma daquelas canções que os meus filhos hão-de cantar com os amigos quando tiverem idade para ir para os copos – e ainda falta muito. Se entre a formação da banda e o álbum de estreia passaram seis anos, entre o primeiro e o segundo álbum passaram apenas dois. Talvez tenha sido esta voracidade e a intensidade com que viveram (na mesma casa!) este período da banda que os conduziu para um final precipitado e prematuro. Mas, também, quem à segunda tentativa saca logo um “Monstro Precisa de Amigos” vai fazer o quê a seguir?

João Cordeiro

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Foto: © Adriana Oliveira

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  1. 1
    Nuno Água

    Quando no Natal passado me foi oferecido o bilhete para 5ªfeira do NOS 2019, os meus primeiros pensamentos foram, “é dia de The Cure”, ” espero que não calhe na vésperar de um exame na faculdade”. Sinceramente The Cure, foi aquilo que esperava, ver uma Banda que merece muito respeito pela sua história, pelo som característico, mas (não querendo ser ofensivo) foi na realidade um concerto onde muita gente esperou pelas 4 ou 5 músicas tocados no uncore, que são as mais conhecidas (pelos não fãs) e que na realidade fogem um pouco ao tal som característico que referi. Mas eis que descubro que no mesmo dia tocam os Ornatos!!! E automaticamente, embora tenha sido um presente, aquele bilhete justificou o seu valor monetário. Tentei absorvê-lo ao máximo, e no tanto que soube, soube a pouco, pois acho que todos os espectadores queriam ainda mais, mais músicas, mais Ornatos! Mas de tudo, um pormenor que me tocou bastante, foi um momento em que o Manel olhou profundamente para a multidão e soltou um “Foda-se!” Sendo o Manel, sendo portuense, poderia não ser nada demais, mas foi algo espontâneo, sentido e emocionado…de quem re-sentiu o calor do público…
    Parabéns pelos 3 textos, pois retratam muito bem o que foram e são os Ornatos para o público Português e para a história da música Portuguesa. Tal como outras bandas, eu não os vejo como um projecto que acabou, mas que não continua, mas que dura, pode e deverá durar, nos discos, nas rádios, ou em qualquer mp3. Os Ornatos realmente merece ser uma banda que passe de Pai para filho.

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